Entregador de app chega a pedalar 50km para ganhar R$ 60 - Tube News

03 junho 2019

Entregador de app chega a pedalar 50km para ganhar R$ 60

A cada dia, a crise coloca nas ruas um contingente de jovens desempregados que decide trabalhar de bicicleta para ter uma fonte de renda.
O entregador Gabriel Vieira, 19 anos, na laje de sua casa. (Foto: Guilherme Balza/CBN)
Tube News, por Guiherme Balza, Rádio CBN
03/06/2019  10h45m
A CBN acompanhou a rotina de entregas de um deles que, pelos aplicativos, são considerados microempreendedores, mas para os críticos, não passam de trabalhadores precarizados.

"Quando eu tinha mais ou menos 14 anos eu imaginaria que eu estaria hoje num trampo registrado, tranquilo, com a minha moto já. Mas a vida nem sempre é do jeito que a gente quer. Tem que ir trilhando o caminho conforme as coisas vão acontecendo."

O caminho trilhado todos os dias por Gabriel Vieira é o mesmo de muitos jovens pobres de São Paulo. Da periferia ao centro, sempre de bicicleta.

Há dois meses ele começou a trabalhar como entregador de aplicativos depois de desistir de procurar emprego com carteira assinada.

Hoje com 19 anos, Gabriel entrou no mercado de trabalho quando o país já estava mergulhado na crise. Chegou a trabalhar por alguns meses registrado como operador de telemarketing, mas está desempregado há oito meses. Era uma jornada de seis horas, com todos os benefícios, salário de quase R$ 1.000. Como entregador, ganha R$ 1.500 por mês.

"Você vai trabalhar se você quiser, você vai e volta na hora que quiser. Os prós e contras são os mesmos. É a maior dificuldade. Trabalhar para você mesmo é isso. Você tem que se vencer todo dia. Todo dia vem aquela preguiça. Eu acabo tentando me convencer de que vale a pena."

A rotina começa às 8h. Ele sai de casa na Cidade Ademar, Zona Sul de São Paulo, onde mora com a mãe e três irmãs, e pedala 13 km até a região da Avenida Paulista. Pela manhã, o ritmo não é tão frenético. A partir das 11h30 o celular não para de apitar.

Gabriel ganha em média R$ 8 por entrega e precisa aproveitar ao máximo o rush do almoço. Coloca cada endereço no celular e pede ao Google para mostrar a rota a pé, que é mais curta.

O algoritmo do aplicativo vale mais que as regras de trânsito. Ele circula boa parte do tempo na contramão, espremido entre o meio-fio e os carros, ou na própria calçada. As entregas caem uma atrás da outra.

"Olha aí. Acabou de chegar outro pedido. R$ 8, um quilômetro."

No restaurante indiano, um imprevisto. A cliente não informou se queria arroz branco ou integral. E o restaurante não libera a refeição até saber a opção certa. Gabriel perde meia hora do dia para resolver o impasse, tempo que seria suficiente para outra entrega.

PATRÃO INVISÍVEL

O ritmo é ainda mais alucinante quando os aplicativos promovem bônus se a demanda subir muito. Por exemplo: quem faz cinco entregas em três horas ganha R$ 30 a mais.

Na parceria com o aplicativo, Gabriel é quem assume os riscos da operação. Se a bicicleta for roubada, o prejuízo é dele. Se sofrer um acidente, perde a fonte de renda. Ele não pode falhar. Um aplicativo decidiu excluí-lo sumariamente por uma entrega que não foi concluída porque a bateria do celular acabou.

"Dá essa sensação de instabilidade, de que pode acontecer alguma coisa e a gente perder o nosso 'emprego'. Também tem um pouco descaso com o nosso tempo. Como se o nosso tempo não fosse muito válido."

O jovem que entrega comida não comeu nada o dia todo. Uma refeição naquela região custa metade do que ele ganha no dia.

Gabriel carrega uma garrafa com chá de ervas que a mãe sempre prepara. Ele tinha 11 anos quando o pai morreu de cirrose. Considera ter muita sorte por ter uma mãe, nas palavras dele, super protetora.

Entre uma entrega e outra, Gabriel diz que não vê a hora de chegar o fim de semana para ver a namorada, que mora do outro lado da cidade.

META BATIDA

Três da tarde. Gabriel bateu sua própria meta diária de R$ 60 e já pode encerrar o expediente. Foram quase 50 quilômetros pedalados no dia. Ainda assim, ele se considera "preguiçoso".

Muitos colegas moram ainda mais longe e trabalham 12 horas de segunda a segunda. Gabriel prefere fazer uma jornada menor para ter forças para o dia seguinte.

No retorno pra casa, observa os aviões que sobrevoam a Zona Sul e fala o que realmente quer no futuro:

"Hoje eu já tenho vontade de ser comissário, entendeu? Quero estudar para ser comissário, fazer um curso de inglês. As coisas não dependem 100% da iniciativa das pessoas. Porque tem várias pessoas em situações diversas, com histórias diversas. E se existir um denominador comum que leve essas pessoas para o lugar certo, teria mais gente indo pro lugar certo do que pro errado. Eles não querem nos incluir em certos ambientes. Querem que haja essa diferença, essa separação."

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