Regras do Twitter afetam robôs que monitoram políticos e órgãos públicos

Contas têm sido vistas como spam pela rede social, que aumentou a vigilância sobre perfis que fazem postagens automáticas.
Empresa aumenta rigidez sobre regras de spam e abuso na rede social, o que colocou os robôs com função civil na berlinda. — Foto: Reuters
Tube News, via G1
01/03/2019  09h15m
A batalha do Twitter contra contas falsas e robôs que espalham spam está começando a afetar também a operação dos “robôs do bem”, usados para vigiar gastos públicos e monitorar políticos, por exemplo.

No Brasil, ao menos 4 deles tiveram a permissão para enviar mensagens automáticas revogada nas últimas semanas. Um deles é a Rosie, robô com mais de 40 mil seguidores, conhecido por monitorar e apontar gastos suspeitos de parlamentares, com base nas informações do Portal da Transparência.

A maioria das contas já conseguiu retomar as postagens, mas com limitações.

O país é o terceiro com mais "bots", como as contas-robôs também são chamadas, segundo a empresa especializada em segurança digital Symantec.

Esses "bots" passaram a ser alvo do Twitter porque a maioria é utilizada para espalhar spam, tentando difundir desinformação ou influenciar eventos e eleições de maneira negativa. Mas a filtragem tem atingido também contas que têm a função de prestar serviços.

O Twitter afirmou que tem regras que determinam os comportamentos e conteúdos permitidos na plataforma, incluindo as de automação.

"Violações a essas regras estão sujeitas às medidas cabíveis”, disse a empresa, em nota. Segundo dados divulgados pelo próprio Twitter,em maio do ano passado a rede social removeu 214% mais contas do que no ano anterior. E o número atual de denúncias de spam na plataforma é 45% menor do que era em 2017.

RosieApós o bloqueio do Twitter, os desenvolvedores da Rosie conseguiram reaver a permissão de enviar mensagens automáticas, mas não podem mais marcar parlamentares e nem a Câmara dos Deputados nas postagens, como faziam antes.

"O Twitter diz que nós fazemos spam, o que nós entendemos que é totalmente contrário ao ordenamento legal que existe no país", diz Eduardo Cuducos, Líder do Programa de Ciência de Dados para Renovação Cívica da ONG Open Knowledge e um dos desenvolvedores da Rosie.

Para ele, a liberação parcial não é solução. "É um remendo. É melhor isso do que nada", afirma.

A Rosie é parte da Operação Serenata de Amor, criada em 2016 como uma iniciativa civil de monitoramento do poder público. Atualmente, é vinculada à ONG internacional Open Knowledge, responsável por compartilhar dados e conteúdo sem custos. Ela já flagrou gastos de parlamentares em Las Vegas, por exemplo.

O nome Operação Serenata de Amor é uma versão abrasileirada do apelido dado ao caso de uma parlamentar na Suécia que usou dinheiro público para comprar um chocolate. Aquele escândalo ficou conhecido como "Toblerone Affair".

Outros casosRosie não foi o único "robô do bem" que foi enquadrado por violar as regras de spam da rede social e passou a ser proibido de marcar perfis.

O Projeto 7c0, que avisa e armazena tuítes que foram apagados de perfis de políticos, e o robô do Colaboradados, que informa quando portais de transparência estão fora do ar, também perderam a permissão de enviar mensagens automaticamente.

O primeiro marcava a pessoa quem apagou o tuíte e o Colaboradados marcava perfis de governos para alertar sobre problemas em um portal de transparência. Eles também foram criados por desenvolvedores independentes e não têm fins lucrativos.

Outro "bot" também afetado foi a Fátima, do portal "Aos Fatos" que responde postagens de usuários que compartilham notícias falsas, avisando sobre o conteúdo dos textos.

Regras pouco claras
Para os desenvolvedores, que escolheram o Twitter por ser uma plataforma mais aberta a iniciativas como esses bots, não há transparência e clareza sobre como as normas do Twitter se aplicam a "bots" bons e "bots" ruins.

Nas regras de automação da rede social, a primeira delas estabelece que "é permitido criar soluções que transmitam automaticamente informações úteis nos tweets".

Para Lucas Lago, desenvolvedor por trás do Projeto 7c0, há uma falta de transparência no que o Twitter considera assédio e como isso se relaciona com os direitos estabelecidos nas leis brasileiras.

“Tuitar uma vez por dia para uma pessoa é assédio? Teoricamente, eu poderia questionar um político que apagou algo que ele disse da rede social. Para o Twitter eu posso fazer isso manualmente, mas não automaticamente”, disse.

“A Rosie não está incomodando um ou outro parlamentar de forma sistemática e invasiva, características do spam; ela está oferecendo uma informação valiosíssima para a administração pública, bem como oferecendo oportunidade para que o próprio parlamentar se explique”, escreveu Eduardo Cuducos.

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