Encontradas mais duas ossadas do tempo da escravidão em SP

Pesquisa de campo foi concluída nesta segunda-feira (10), em terreno particular que abrigou Cemitério dos Aflitos, primeira necrópole de São Paulo, entre os séculos XVIII e XIX.
Ossadas são localizadas em local documentado como a primeira necrópole da cidade de São Paulo, no bairro da Liberdade — Foto: Marcelo Brandt/G1
Tube News, via G1
12/12/2018  07h11m
Arqueólogos encontraram esta semana mais duas ossadas na área que abrigava o antigo Cemitério dos Aflitos, no bairro da Liberdade, região central da cidade de São Paulo. Os trabalhos de pesquisa de campo terminaram nesta segunda-feira (10). Sete ossadas haviam sido encontradas entre outubro e o início de dezembro, conforme o G1mostrou com exclusividade em reportagem na quinta-feira (6). Ao todo nove esqueletos do tempo da escravidão serão submetidos a exames laboratoriais.
Arqueólogos identificaram dois botões, um de metal e outro de osso, em terreno que abrigou Cemitério dos Aflitos, a primeira necrópole pública da cidade de São Paulo — Foto: A Lasca Arqueologia/Divulgação


Nesta segunda-feira (10), os arqueólogos encerraram os trabalhos de campo, e informaram ter localizado mais duas ossadas na área. “Encontramos outros dois esqueletos, ambos fragmentados, e dois botões, um de metal e outro de osso, que era uma matéria-prima usada à época”, explica Sônia Cunha, arqueóloga coordenadora da pesquisa em campo. "Ainda não é possível atribuir muitas conclusões sobre os indivíduos antes das análises laboratoriais."

A equipe da empresa A Lasca identificou resquícios da necrópole, que foi a primeira da capital paulista, encontrou o material arqueológico durante um trabalho em um terreno particular, atrás da Capela de Nossa Senhora dos Aflitos.
Arqueóloga Nathalia Rodrigues inicia análise de materiais identificados entre outubro e dezembro de 2018 em terreno particular — Foto: A Lasca Arqueologia/Divulgação

De acordo com os pesquisadores, estas sete ossadas identificadas inicialmente foram enterradas no período de 1775 a 1858, comprovando a existência do Cemitério dos Aflitos, até então só conhecido por documentos.

De acordo com a pesquisadora, o próximo passo é concluir o relatório de campo para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que concedeu a portaria de pesquisa. O documento conterá um resumo das atividades desenvolvidas, com a metodologia usada e os dados preliminares.

“Não há mais esqueletos aqui. Limpamos toda a área e fizemos tudo que poderia ser feito. Talvez sob os edifícios vizinhos haja outras ossadas, dependendo da profundidade que já foi escavada”, afirma Sônia. “Vamos terminar de escrever o relatório de campo, examinar o que foi identificado e então entregar um relatório final, mais detalhado, descrevendo os materiais, que serão acompanhados de uma contextualização histórica. Será um diagnóstico”, continua a arqueóloga.
Ossadas da época da escravidão foram encontradas em terreno na Liberdade — Foto: TV Globo/Reprodução

A pesquisadora estima que as obras de um novo empreendimento comercial no terreno particular deverão ser liberadas pelo Iphan no início de 2019, quando o órgão vinculado ao Ministério da Cultura deverá se manifestar sobre os trabalhos realizados pelos arqueólogos.

Entenda
A área localizada entre as ruas Galvão Bueno e dos Aflitos é uma propriedade particular e até o início deste ano abrigava um prédio. A proprietária do espaço decidiu demolir o edifício por causa de problemas estruturais e construir um novo empreendimento comercial no local.

Por estar no entorno da Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, que é um bem tombado, está sob a regulamentação dos órgãos de preservação do patrimônio histórico e cultural, que recomendaram uma pesquisa arqueológica para saber se havia evidências do antigo cemitério, só conhecido por meio de documentos, segundo Lúcia Juliani, diretora da empresa A Lasca, contratada para a consultoria arqueológica.
Arqueóloga trabalha na escavação em um sítio funerário descoberto em um terreno na Liberdade, em São Paulo. A região abrigava o Cemitério dos Aflitos, o primeiro cemitério público da cidade, onde escravos, condenados e outras pessoas marginalizadas eram enterradas — Foto: Marcelo Brandt/G1

“Os esqueletos não foram enterrados com pertences e um deles usava um colar com contas de vidro, o que indica o pertencimento a alguma religião de matriz africana. Assim, no mínimo, a descoberta comprova que o primeiro cemitério de São Paulo era destinado às populações marginalizadas socialmente”, explica Sônia Cunha, que coordena o trabalho.

O bairro da Liberdade era habitado por escravos. Antes de se chamar Praça da Liberdade, o espaço público era conhecido como Largo da Forca, e o atual Largo Sete de Setembro era o Largo do Pelourinho. Sob a atual Rua da Glória estava o Cemitério dos Aflitos, documentado como a necrópole destinada aos escravos recém-identificada pela equipe da A Lasca.

“O patrimônio histórico é a memória de um povo, o que lhe confere identidade, consciência de cidadania. Os bens arqueológicos são para usufruto do cidadão, que precisa conhecer a sua própria história", diz Leila Maria França, arqueóloga do Iphan, que deu o aval para a escavação. "Tem a questão do desenvolvimento, e os empreendimentos devem ser realizados, mas de forma sustentável do ponto de vista cultural", conclui.

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