Homem escala prédio para resgatar criança; caso ocorreu em Paris, França. - Tube News

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27 maio 2018

Homem escala prédio para resgatar criança; caso ocorreu em Paris, França.

Um imigrante maliano foi saudado como herói depois de escalar a fachada de um prédio em Paris para salvar uma criança pendurada em uma sacada do quarto andar.
Mamoudou Gassama, de 22 anos, escalou prédio em Paris para salvar menino (Foto: Reprodução/Tube News TV)

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O imigrante malinês de 22 anos que escalou um prédio no norte de Paris para evitar a queda de um menino ganhou a cidadania francesa. Mamoudou Gassama, que chegou à capital francesa em setembro, encontrou-se nesta segunda-feira (28) com o presidente Emmanuel Macron.

“É um ato excepcional, e por isso, a partir de hoje, todos seus documentos serão regularizados e vamos dar início a um processo para que você possa obter sua cidadania francesa”, afirmou o presidente francês. “Você se tornou um exemplo para muitas pessoas, é normal que a nação demonstre seu reconhecimento”, completou.

Macron vem sendo duramente criticado por endurecer a política em relação aos imigrantes ilegais, favorecendo as expulsões. O presidente francês anunciou ainda que Gassama irá integrar o corpo de bombeiros.

No sábado (27), Mamoudou Gassama, que vive em um abrigo, escalou quatro andares com as mãos e evitou a queda do menino de 4 anos da sacada de um prédio, no 18° distrito de Paris.

O vídeo que registou o salvamento viralizou. As imagens mostram que ele precisou de cerca de 30 segundos para escalar os quatro andares apenas com a força dos braços.

Mamadou Gassama disse que agiu sem pensar, “porque se tratava de uma criança e ele gosta muito de crianças”, de acordo com a Rádio França Internacional. Ele diz não ter avaliado o risco. “Ouvi as buzinas, os carros em volta buzinarem, atravessei a rua para salvá-lo e graças a Deus consegui”, declarou. Ao jornal “Le Parisien”, o imigrante malinês disse que “vai à academia, corre com frequência e joga futebol”.
Presidente francês, Emmanuel Macron, encontrou nesta segunda-feira (28) malinês Mamoudou Gassama, 22, que escalou prédio em Paris para salvar menino (Foto: Thibault Camus/Reuters)


Em entrevista o canal BFMTV, o jovem também disse que sentiu medo depois de salvar a criança. “Fui para a sala do apartamento e comecei a tremer. Precisei me sentar e perguntei ao menino porque tinha feito aquela bobagem. Ele não me respondeu”.

O menino em seguida foi atendido pelo corpo de bombeiros, que atribuiu a façanha à ótima condição física de Mamadou”. O menino saiu ileso e só perdeu uma unha. O jovem malinês teve poucos arranhões.

Um inquérito foi aberto pela polícia para apurar o caso. O pai da criança, de 36 anos, foi detido para interrogatório. Ele contou que deixou o garoto sozinho em casa “alguns minutos” para fazer compras, e disse que a criança subiu na sacada e ficou bloqueada do lado de fora. A mãe não estava em casa. A Justiça retirou temporariamente a guarda do menino da família.


Com informações da BBC, G1 e BFMTV
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Novos detalhes
Passado o susto inicial com o caso, alguns detalhes da história começaram a vir à tona.

O menino estava em Paris havia apenas três semanas – havia se mudado para a capital francesa vindo da Ilha Reunião, território ultramarino francês a leste de Madagascar.

Sua mãe ainda mora na ilha e planeja mudar-se para Paris com seu segundo filho em junho.

O pai e o menino na verdade moram no sexto andar do prédio em Paris, segundo informou o zelador do edifício à emissora francesa BFMTV.

Isso significa que a criança já havia caído dois andares e, de alguma forma, conseguiu agarrar as grades da varanda do quarto andar.

A mãe explicou à rádio local Antenne Réunion que o pai não estava acostumado a cuidar do filho e que não era a primeira vez que a criança ficava sozinha no apartamento.

O pai havia ido às compras e ficado na rua jogando Pokémon Go, segundo promotores do caso.

"Não posso justificar o que o meu marido fez. As pessoas dizem que poderia ter acontecido com qualquer um e já aconteceu com outros. Meu filho teve sorte", ela comentou.

As autoridades agora estão acionando judicialmente o pai do menino por negligência. O homem se diz "profundamente arrependido", segundo a Promotoria parisiense.

Na França, a negligência nas obrigações parentais pode ser punida com até dois anos de prisão e uma multa equivalente a R$ 135 mil.

E quanto ao vizinho?
No vídeo que viralizou nas redes sociais, é possível ver Gassama escalando a fachada do prédio e também vizinhos na varanda ao lado da qual o menino estava pendurado.

Um dos homens parece estar bem próximo à criança, a ponto de algumas pessoas questionarem por que ele mesmo não agarrou o menino e o salvou.

Segundo o vizinho disse ao jornal "Le Parisien", porém, a separação entre as varandas o permitia alcançar a mão do menino, mas não erguê-lo.

"Eu não queria arriscar soltar a mão dele, achei que o melhor a fazer era ir passo a passo", disse.

O vizinho contou também que o menino estava usando uma fantasia de Homem-Aranha, tinha um sangramento em um dos dedos e uma unha quebrada.

Bombeiros entraram pelo apartamento do vizinho, escalaram a separação entre as varandas e chegaram a Gassama e ao menino, que no momento está sob a custódia das autoridades francesas, segundo a imprensa local.

Um 'verdadeiro herói'
Gassama afirmou que, assim que conseguiu resgatar o menino, "entrei no prédio e fiquei tremendo" por conta do estresse.

A avó da criança agradeceu Gassama e elogiou seu heroísmo.

"Meu Deus, eu estava em choque. Meu neto, meu neto, salve-o!", disse ter sido sua reação ao ver as imagens do resgate.

"Por sorte, ele (Gassama) sabia escalar, porque havia muitas pessoas (assistindo à cena) lá embaixo, mas ele não ficou de braços cruzados. Correu para chegar ao quarto andar, o que foi incrível. Ele foi muito corajoso. Um verdadeiro herói", prosseguiu ela, em entrevista à emissora RMC.

O presidente francês, Emmanuel Macron, agradeceu ao imigrante malinês de 22 anos no Palácio do Eliseu, na segunda-feira. E anunciou que Gassama receberá nacionalidade francesa honorária e uma oferta de emprego como bombeiro.

Gassama já recebeu residência francesa – o primeiro passo no processo de cidadania – e assinou um contrato de dez meses como estagiário dos Bombeiros de Paris.

Trajetória até a França
O jovem malinês havia deixado seu país ainda adolescente, em 2013.

Ele seguiu uma das rotas comuns entre migrantes no norte da África: atravessou o deserto do Saara por Burkina Faso, Níger e Líbia e fez a travessia pelo Mediterrâneo até chegar à Itália em 2014. Foi sua segunda tentativa: ele chegou a ser interceptado pela polícia em alto-mar e teve de regressar ao continente africano.

"Eu não tinha como sobreviver e ninguém para me ajudar", contou a Macron.

Durante essa jornada, chegou a passar um ano trabalhando na Líbia, onde migrantes são frequentemente explorados ou mesmo escravizados por traficantes humanos.

"Eu sofri muito. Fomos (eu e outros migrantes) aprisionados e surrados, mas não perdi as esperanças", disse.

Gassama também contou a Macron que, ao chegar à Europa, decidiu ir à França porque seu irmão já morava no país havia alguns anos.

Ao chegar a Paris, trabalhou fazendo bicos na construção civil e morou em um albergue na área periférica de Montreuil, que abriga uma grande comunidade malinesa.

Ele não havia pedido refúgio e estava com status irregular na França. Em seu albergue, dividia o quarto com parentes e dormia em um colchão no chão.

Macron disse a Gassama que ele "se tornou um exemplo. O país está agradecido".

Segundo o presidente, a documentação migratória do rapaz será colocada "em dia". "Um ato excepcional de heroísmo (merece) uma decisão excepcional", declarou, advertindo, porém, que não pode fazer o mesmo por "todos os (migrantes) que vêm de Mali ou Burkina Faso (dois países com o maior número de migrantes nas jornadas pelo Mediterrâneo)".

Por causa disso, diversos grupos de defesa dos imigrantes acusaram o presidente de "hipocrisia" e de "explorar politicamente" a história de Gassama.

O malinês, por sua vez, se disse "satisfeito" com a honraria recebida no Palácio do Eliseu. "É a primeira vez que recebo um prêmio como esse."

Por BBC
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