USP RECEBEU 102 NOTIFICAÇÕES SOBRE TREMOR NO BRASIL E VAI FAZER ESTUDO SOBRE SOLO

Plataforma que monitora tremores no país usará depoimentos para estudar mais profundamente o solo onde o terremoto foi mais sentido.
Funcionários esvaziam prédio da Avenida Paulista após tremor (Foto: Reprodução/TV Globo)

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O Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP) recebeu 102 relatos de brasileiros sobre o tremor de 6,8 que aconteceu na segunda-feira (2) na região dos Andes, na Bolívia. A USP informa que os depoimentos serão utilizados em pesquisa sobre o solo e dão uma ideia da intensidade do tremor, variável que nem sempre consegue ser medida pelos sistemas automáticos.

Jackson Calhau, analista do Centro de Sismologia da USP, explica que há duas maneiras de medir um terremoto: pela sua magnitude e pela sua intensidade. Grosso modo, a magnitude mede a energia liberada pelo tremor e é indicada pela escala Richter. Já a intensidade, dá uma medida do impacto do terremoto na sociedade e é monitorado pela escala Mercalli.

A magnitude é capturada por sistemas automáticos; a intensidade, por sua vez, é medida por meio de um cálculo qualitativo complexo que incluem os relatos de residentes de regiões onde os terremotos aconteceram e análises in loco.

Os depoimentos chegaram à USP por meio do site e do aplicativo "Sentiu aí?". No ar desde 2015, o sistema da universidade já recebeu mais de 1212 notificações sobre tremores.

"Os relatos enviados por brasileiros foram mais no sentido de apontar para certa vibração e, em prédios mais altos, os depoimentos falaram sobre a vibração de objetos, como lustres", diz Calhau.

"Quanto mais intenso o relato, maior a possibilidade da pessoa estar mais próximo do epicentro [quando o tremor é sentido com mais intensidade]", explica.

A Universidade de São Paulo usará os relatos para mapear a estrutura dos solos onde ele foi mais sentido, diz Calhau. Essa investigação é importante para ajudar a sociedade a se preparar para tremores futuros -- além de contribuir com outras pesquisas sobre camadas mais profundas da Terra.

Por exemplo, a probabilidade do tremor ter mais intensidade é maior em lugares com mais sedimentos. Sedimentos são materiais rochosos produzidos pela erosão -- na prática, pequenas rochas misturadas à terra.

"Vamos usar esses dados para perceber se a intensidade do tremor se deu pela estrutura do solo ou se foi só porque as pessoas que enviaram os relatos estavam em prédios mais altos", explica o analista.

O analista diz que o estudo vai se estender por toda a Bacia do Paraná (região que abrange o centro-sul do Brasil). A investigação também contará com a colaboração de geógrafos para que a estrutura dos solos seja estudada mais profundamente.

O estudo, no entanto, vai mais no sentido de entender o histórico de terremotos no Brasil e as características do solo. Segundo o cientista, não há uma grande preocupação com o tremor que ocorreu na Bolívia.

"A gente tem uma lista de todos os tremores no Brasil desde 1948. Dos que ocorreram no Andes, não temos sequer um relato de que algum dano tenha ocorrido no Brasil", diz.

O monitoramento do histórico do tremor no Brasil é importante para que uma resposta seja dada à sociedade durante um tremor, diz o cientista. Um outro ponto é que o histórico da sismicidade ajuda a estudar camadas mais profundas da Terra e fornece informações importantes para grandes construções.

"A informação sobre terremotos é muito relevante para a construção de uma usina nuclear ou de uma barragem, por exemplo. Se a construção for feita em locais onde já aconteceram terremotos, a estrutura tem que ser pensada no sentido de suportar um tremor", conclui o especialista.
Mapa mostra histórico dos terremotos que ocorreram no Brasil de 1720 até dezembro de 2017. Os círculos em vermelho mostram a magnitude do tremor (Foto: Centro de Sismologia/USP)

Tremores são pequenos no Brasil, mas existem

Quando comparados a outros tremores na América do Sul, os terremotos no Brasil são pequenos, mas não podem ser desprezados, diz Calhau.

"A sismicidade no Brasil existe e não pode ser negligenciada", aponta.

O cientista diz que o maior tremor no Brasil foi sentido no Mato Grosso em 1955, e teve magnitude de 6.2, menor que o tremor sentido na Bolívia. No mesmo ano, também um tremor de 6.1 foi sentido no Espírito Santo. Na época, os tremores ocorreram em regiões menos povoadas e não há relatos de estragos.

Ele explica que a magnitude nem sempre consegue dar uma medida dos estragos de um tremor. "É difícil precisar porque vai depender da estrutura do lugar", diz.

"Um terremoto no Chile teve magnitude 8 e pouco aconteceu. Outro no Nepal teve magnitude 7 e várias estruturas desabaram", diz.

Segundo o especialista, o Brasil está no meio de duas placas tectônicas e, por isso, não há grandes terremotos por aqui. Calhau explica, no entanto, que rachaduras e falhas dentre essas placas podem deflagrar tremores.

"A gente espera algum tipo de energia nessas falhas. Por exemplo, o ano passado teve um tremor no Maranhão e no Piauí de 4.6, uma região onde nunca ocorreu um terrremoto", explica.
 

Por Monique Oliveira, G1
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