COM POUCO COMBUSTÍVEL, PILOTOS DO VOO DA CHAPE COGITARAM POUSAR EM BOGOTÁ - Tube News

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29 abril 2018

COM POUCO COMBUSTÍVEL, PILOTOS DO VOO DA CHAPE COGITARAM POUSAR EM BOGOTÁ

Acidente, em novembro de 2016, foi causado pela falta de combustível, aponta investigação; 71 pessoas morreram.
Avião que transportava a delegação da Chapecoense para Medellín, na Colômbia, sofreu um acidente na madrugada desta terça-feira (Foto: Luis Benavides/AP)


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Os pilotos do voo que levava a delegação da Chapecoense cogitaram uma escala para reabastecimento antes de chegar a Medellín, revelam as conversas na cabine de comando da aeronave da Lamia. O avião caiu por falta de combustível, concluiu relatório final sobre o acidente, divulgado na sexta-feira (27) pela Aeronáutica Civil da Colômbia (Aerocivil).

Os diálogos na cabine de comando da aeronave, um Avro RJ-85, mostram que comandante e copiloto falam sobre pousar em Letícia, na fronteira da Colômbia com o Brasil, e em Bogotá --todos antes de Medellín. As alternativas foram mencionadas mais de duas horas antes de o avião cair, na noite de 28 de setembro de 2016.

18h59m07s - Copiloto: "Com quanto tempo extra chegaremos lá com o combustível?"
18h59m10s - Comandante: "Com 20 minutos mais. Não, uns 45 minutos mais (...) o bom é que o aeroporto alternativo está antes [de Medellín]"

Os dois então passam a falar do consumo de combustível e consideram que, dado o peso do avião e o vento contrário, não conseguiriam chegar a tempo.
19h37m52s - Comandante: "Está f* a coisa"
19h38m24s - Copiloto: "Para Bogotá estamos a mil quilos [restantes de combustível]"
19h38m27s - Comandante: "Com isso não vamos [conseguir chegar]. E antes de Bogotá, o que há?
19h39m06s - Copiloto: Letícia [cidade na fronteira com o Brasil]
A tripulação desiste de Letícia e passa a considerar Bogotá.
19h46m56s - Comandante: "Vamos ver se chegando a Bogotá vamos definir se pedimos uma espera [um ponto de espera antes do aeroporto] ou se pousamos"
Ao falar com o controle de tráfego aéreo, a tripulação consegue uma rota direta para o aeroporto de Medellín e decide prosseguir.
19h52m21s - Copiloto: Mantemos então [a rota para Medellín].
19h52m22s - Comandante: Mantemos.

Os pilotos haviam começado a falar do risco de o combustível acabar mais de duas horas antes do acidente, de acordo com a investigação. Alertas sonoros e no painel da cabine apontaram, 40 minutos antes do acidente, a iminência do problema. Mas a tripulação só informou a falta de combustível ao controle de tráfego aéreo dez minutos antes de a aeronave cair.



Conclusões
"Está f* a coisa", diz o comandante Miguel Quiroga, oficialmente um dos donos da Lamia, às 19h37, horário da Colômbia, segundo a transcrição da caixa-preta. Ele se referia à preocupação de não conseguir ter combustível suficiente para chegar a Bogotá, que fica antes de Medellín --o destino do voo. O controle de tráfego aéreo foi informado de falta de combustível, efetivamente, às 21h49 --o acidente se deu dez minutos depois, às 21h59 de 28 de novembro, segundo o relatório.

A primeira referência ao combustível aparece às 18h20, pouco mais de uma hora após a decolagem. "Isso está grave", diz o copiloto Ovar Goytia. "Temos que subir", responde o comandante. Voar mais alto permite poupar combustível. As menções à quantidade de combustível aparecem em todo o voo, a ponto de a tripulação cogitar fazer uma escala para abastecer em Bogotá ou em Letícia, esta na fronteira com o Brasil.

Outras das conclusões foi que, 40 minutos antes do acidente, a aeronave já estava em emergência por falta de combustível e a tripulação nada fez, mesmo tendo indicação na cabine, como luz vermelha e avisos sonoros.

Os investigadores chegaram a essa conclusão ao analisar a caixa-preta, que contém gravadores de dados de voz e de voo.

A investigação concluiu também que o avião tinha 2.303 quilos de combustível a menos do que deveria levar para a viagem. Segundo as normas internacionais, um voo deve ter combustível para chegar ao aeroporto de destino, mais o suficiente para um aeroporto alternativo, caso haja problemas, e ainda mais 30 minutos de reserva.

O mínimo para cumprir os regulamentos internacionais naquele voo era um total de 11.603 quilos de combustível, segundo a investigação. Mas a aeronave da Lamia tinha apenas 9.300 quilos de combustível.

Sem escala
O avião da empresa Lamia caiu levando a delegação do time catarinense no dia 28 de novembro de 2016, deixando 71 mortos. A investigação confirma que o combustível do avião era insuficiente para o voo entre Santa Cruz, na Bolívia, e Medellín, na Colômbia.

O acidente ocorreu por esgotamento de combustível como consequência da falta de gestão de risco apropriada pela Lamia, afirmou a autoridade de aviação civil colombiana, que classificou a situação como algo "inconcebível de acontecer".

Sem o combustível, os motores pararam de funcionar e o avião planou até bater. Entre as principais conclusões apresentadas na Colômbia, estão:

  • 40 minutos antes do acidente, o avião já estava em emergência e a tripulação nada fez. Houve indicação, luz vermelha e avisos sonoros, na cabine. "A tripulação descartou uma aterrisagem em Bogotá ou outro aeroporto para reabastecer", diz o documento.
  • O controle de tráfego aéreo desconhecia a "situação gravíssima" do avião.
  • O contrato previa escala entre Santa Cruz e o aeroporto de Medellín, mas a empresa planejou voo direto.
  • A Lamia estava em situação financeira precária e atrasava salários aos funcionários. A empresa sofria de desorganização administrativa;
  • A Lamia não cumpria determinações das autoridades de aviação civil em relação ao abastecimento de combustível. O piloto, Miguel Quiroga, “decidiu parar em Bogotá, mas mais adiante mudou de ideia e foi direto para Rionegro", onde o avião caiu.
  • Entre as recomendações apontadas no documento, a Colômbia deve melhorar controles sobre voos fretados.
A Aeronáutica Civil colombiana reforçou que o relatório final não se destina a apontar culpados para que sejam punidos, mas esclarecer as circuntâncias do acidente para permitir que sejam adotadas medidas preventivas que evitem novos acontecimentos como o da tragédia da Chape.


Por Ricardo Gallo, G1, São Paulo

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