CLIENTE NEGRO É CHAMADO DE 'MACACO' EM PEDIDO DE REDE DE FAST-FOOD EM SP - Tube News

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27 março 2018

CLIENTE NEGRO É CHAMADO DE 'MACACO' EM PEDIDO DE REDE DE FAST-FOOD EM SP

Vítima fez BO por injúria racial; Burger King diz que cliente é ex-funcionário que pediu demissão e que afastou o atendente.
Foto mostra Burger King onde estudante David Silva foi identificado como 'macaco' em cupom fiscal no pedido de seu lanche (Foto: Reprodução/Google Maps/Arquivo pessoal/Redes sociais)

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Um cliente negro foi chamado de "macaco" no pedido de lanche feito por uma famosa rede de fast-food na Zona Sul de São Paulo, na madrugada do último sábado (24). O caso ocorreu no Burger King da Avenida Santo Amaro, na região de Moema, área nobre da capital.

Dois dias depois, a vítima, o universitário David Reginaldo de Paula Silva, de 24 anos, registrou boletim de ocorrência por injúria racial para que a Polícia Civil identifique e puna, na esfera criminal, o funcionário da loja que o ofendeu ao escrever o nome do animal no lugar de seu nome no cupom fiscal.

O advogado do estudante de relações internacionais informou que também pretende acionar o Burger King (BK) na esfera cível para que ele seja responsabilizado a pagar indenização por dano moral a David por causa da atitude preconceituosa e racista de seu empregado.

Em nota, o Burger King afirmou que afastou o atendende e que o cliente é um ex-funcionário da companhia. Disse ainda que entregou à polícia um vídeo no qual David aparece ao lado do balcão e acompanha o registro do pedido e a digitação do seu nome (leia ao final dessa reportagem).

“Meu aniversário foi dia 19. Saí na sexta para comemorar, e na volta fui com uma amiga diplomata à lanchonete para comer algo. Vi no balcão um cupom de desconto. Fiz um pedido normal. O atendente perguntou meu CPF, nome e anotou. E esperei chamar minha senha. Foi quando vi ao lado da senha o nome ‘macaco’ e fiquei assustado”, disse David nesta terça-feira (27).

Ele contou que, mesmo diante dos risos de três atendentes, incluindo o que escreveu ‘macaco’, preferiu guardar o comprovante e tentar comer seu hambúrguer, batata e tomar refrigerante. Ele havia dado uma nota de R$ 50 para pagar R$ 38, 80 do lanche. Em seguida, recebeu um troco de R$ 11,20 juntamente com o bilhete ofensivo.

“Aí liguei para meu pai e ele falou para guardar papel. Não fiz escândalo, não questionei o atendente e também não peguei sua identificação. Cheguei a comer dois pedaços e perdi o apetite. Depois fui para casa”, afirmou.
David postou a foto do cupom onde se lê 'macaco' no lugar do nome do cliente e fez um desabafo na sua rede social (Foto: Reprodução/Facebook)


Facebook
“O preconceito racial é uma ‘doença’ que deve ser eliminada da sociedade brasileira. É inadmissível que em pleno século XXI, em 2018, ainda possa acontecer esse tipo de atitude racista”, postou David nas redes sociais. Ele usa o nome David Zambelli Jr (chocolate) em seu Facebook.

David, que ainda trabalha como assistente administrativo de uma empresa, espera que a repercussão do caso sirva como alerta para que atos racistas não ocorram mais na rede de fast-food. "Já havia sofrido racismo antes, mas nunca assim tão direto", falou à reportagem.

A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) registrou a queixa como injúria racial porque, de acordo com o artigo 140, parágrafo 3º do Código Penal, o funcionário do BK ofendeu a dignidade ou decoro utilizando palavra depreciativa referente à raça e cor com a intenção de ofender a honra da vítima.

O crime de racismo, previsto na Lei n. 7.716/1989, é aplicado quando a ofensa discriminatória é contra um grupo ou coletividade. Por exemplo, impedir que negros tenham acesso a estabelecimento comercial, privado etc.

“Foi feito o BO de injúria racial, que prevê pena de 1 ano a 3 anos de prisão”, disse o advogado Marcello Primo Muccio, que defende os interesses de David. “Na quinta-feira (29), a amiga dele vai prestar depoimento sobre o fato. Depois vou entrar com uma ação indenizatória. A princípio são essas as providências”.
Delegacia registrou BO como injúria racial (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

Burger King
Leia abaixo o comunicado do Burger King encaminhado ao G1 por meio da assessoria de imprensa da rede de fast-food.

“O Burger King informa que tomou conhecimento do caso relatado na unidade localizada na loja da Avenida Santo Amaro, em São Paulo, e está apurando o ocorrido para que as medidas necessárias sejam tomadas. A companhia reitera que repudia todo e qualquer ato discriminatório", informa o comunicado da empresa.

Em uma segunda nota enviada no final da tarde, o Burger King afirmou:

"O BK Brasil reitera que abomina qualquer ato de discriminação racial, de gênero, classe social ou qualquer outro tipo. Somos uma empresa que preza pela diversidade. Nosso propósito é fazer com que todos se sintam bem-vindos quando entram em qualquer um de nossos restaurantes. Tomamos conhecimento do acontecido em nosso restaurante em São Paulo e estamos levando o caso muito a sério.

Segue o que já sabemos até o momento:
- Já estamos colaborando com as investigações e já demos as imagens de nossas câmeras de segurança para às autoridades;
- O consumidor é um ex-funcionário da companhia;
- O funcionário que atendeu ao reclamante comunicou a gerência do restaurante que seguiu instruções diretas do consumidor;
- Nos vídeos entregues às autoridades, é possível ver imagens do consumidor entrando ao lado do balcão e conversando com o atendente – onde ele acompanha o registro do seu pedido e digitação do nome a ser chamado;
- O funcionário em questão foi afastado preventivamente enquanto a investigação está em curso;
- Independente do resultado das investigações, o Burguer King lamenta profundamente o episódio que vai totalmente contra seus princípios e a prática cotidiana de seus mais de 12 mil funcionários em todo o Brasil.

Reforçamos que o BK Brasil continuará contribuindo com as investigações, reforçando o compromisso público de repudio à qualquer tipo de discriminação."



"A pergunta que fica é a seguinte: até quando teremos que aguentar preconceito como esse? Por que é tão difícil entender que, situações como essa, ultrapassam vertiginosamente a barreira entre 'brincadeira' e preconceito?", Tube News.

Por Kleber Tomaz e Livia Machado, G1 SP, São Paulo
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