'ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE': AGATHA CHRISTIE CONTINUA DANDO JOGO - Tube News

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04 dezembro 2017

'ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE': AGATHA CHRISTIE CONTINUA DANDO JOGO

Filme, baseado no livro clássico da escritora britânica, é um trabalho digno o de Kenneth Branagh, rodeado por uma lista de estrelas.

Kenneth Branagh, em uma imagem de 'Assassinato no Expresso do Oriente'.

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Tenho uma lembrança antiga e muito grata dos romances de Agatha Christie. Foi há mais de cinquenta anos, e os localizei com ânsia progressiva na muito heterodoxa biblioteca dos meus avós, em uma chuvosa e brumosa aldeia galega onde ambos trabalhavam como professores. Não creio que esses livros me provocassem sensações grandiosas, mas sim algo tão apreciável como o entretenimento, para ir devorando páginas e fazendo apostas quase sempre inúteis sobre a identidade do assassino em intrigas tão bem construídas como similares.

Ignoro se continua sendo reeditada a obra desta senhora que durante décadas foi lida com deleite por Deus e o mundo. Nunca retornei a essas páginas, embora me surja um cálido sorriso cada vez que a memória cumpre sua missão. E ela me assegura que me diverti muito na companhia de E não sobrou nenhum, Os Cinco Porquinhos e O Assassinato de Roger Ackroyd (seu melhor romance, e quero ver quem foi esperto a ponto de intuir que o assassino era o narrador), tantos mistérios sanguinolentos a serem resolvidos pelo elegante e cerebral inspetor belga Hercules Poirot e pela deliciosa velhinha Miss Marple. Não foram esses detetives os que apaixonaram perpetuamente, como sim fizeram os fascinantes Sherlock Holmes e Philip Marlowe, mas alguma marca eles me deixaram.

O cinema e a televisão adaptaram à exaustão a obra de Agatha Christie (e suspeito que continuarão a adaptá-la, que a moda será eterna). Os resultados são irregulares, logicamente, e em muitos casos recorrem ao remake, com a certeza de que o público sempre vai se interessar pelas tramas imaginadas por tão fértil escritora. Assassinato no Expresso do Oriente, rodada em 1974, levava a assinatura de Sidney Lumet, ancestral autor de um cinema pessoal, complexo e sombrio. Naquele caso, limitou-se a fazer um trabalho muito profissional, pelo qual imagino que a sua conta corrente tenha agradecido, mas sem introduzir suas obsessões. Kenneth Branagh, alguém cuja vocação se centrou em algo tão transcendente e perigoso como adaptar Shakespeare para o cinema, dirige e protagoniza este remake. E o faz com vontade de estilo, de encontrar uma narrativa visual que vá além das normas básicas do blockbuster. Sua câmera se move energicamente em meio a esse trem mítico, retido por uma avalanche de neve nas montanhas da Iugoslávia. Lá, o engomado, pulcro e metódico Poirot se propõe a averiguar, entre um exótico grupo de passageiros, quem liquidou um personagem muito turvo, alguém cuja torpeza torna crível que suas antigas e numerosas vítimas desejem sua morte.

Embora os leitores e os espectadores da primeira versão não possamos nos surpreender com a elucidação do enigma, tampouco sofremos a intolerável sensação de ter perdido tempo. É um trabalho digno por parte de Kenneth Branagh, ladeado por uma lista de nomes estelares, na qual o único que me parece estridente é o cada vez mais histriônico Johnny Depp, um bom ator que começa a me esgotar, que me deixa nervoso, e que anda ostentando uma máscara muito crispada, muito esquisita. E celebro me reencontrar com essa preciosa mulher e atriz hipnótica chamada Michelle Pfeiffer, desterrada há tempos dessa mesquinha Hollywood que não perdoa suas antigas deusas por envelhecerem. E, obviamente, fico com uma irresistível vontade de um dia viajar no Expresso do Oriente, de fazer a rota completa.




Por Carlos Boyero, do El País
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