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25 junho 2017

NETFLIX CANCELA SÉRIE QUE ACABOU DE ESTREAR

A empresa confirma o cancelamento de Girlboss (e talvez seu erro na compra desenfreada de conteúdo)

Série Girlbooss (Foto: Divulgação/Netflix)

Depois de ter soltado a notícia do cancelamento da série que produz, Sophia Amoruso apagou as mensagens em seu Instagram apenas uma hora após a postagem. Até ontem a Netflix não havia se manifestado se Girlboss estava mesmo cancelada, mas a gigante do streaming confirmou: o plugue foi mesmo puxado.

A série, então, se despede apenas com uma temporada. Essa é a primeira produção da Netflix que se encerra tão cedo e segue a promessa de Reed Hastings de que “veremos muito mais coisa sendo cancelada” nos próximos meses. Recentemente a empresa apurou resultados financeiros abaixo da média ao final do 1º trimestre de 2017, mesmo tendo atingido a marca de 100 milhões de usuários no mundo. Além disso, eles contraíram empréstimos bilionários para financiar a desenfreada e multibilionária aquisição de todo tipo de conteúdo no mundo, de forma a abastecer sua plataforma com produtos com o selo Original.

Após o cancelamento de Sense8, The Get Down e Marco Polo, ficou evidente que existe alguma coisa errada aí. Girlboss nunca foi unanimidade entre crítica e público e a série é de fato bem ruinzinha. Mas a Netflix sabia (ou deveria saber) que seria assim. Desde antes ser exibida, a showrunner Kay Cannon disse no painel da Netflix em Nova York que a comédia seria sobre uma personagem principal “complicada”. Na verdade, sua protagonista não gera empatia com o público, premissa básica para que uma produção com “anti-heróis” funcione (vide Breaking Bad, The Americans, 30 Rock e tantas outras).

Foi naquele mesmo evento em fevereiro que a empresa celebrou o fato de que apenas em sua plataforma encontramos produções tão únicas como The OA, Santa Clarita Diet, Orange is the New Black, Cara Gente Branca e as próprias The Get Down, Sense8 e Girlboss que viriam a ser canceladas meses dali. Na minha frente Kay Cannon, Paul Rust, Jamie Clayton, Britt Marling e outras personalidades comemoravam que a Netflix dava voz à produções “peculiares”. Será que eles não testam essas séries como os outros canais e estúdios de cinema fazem pra tentar melhorar o que não funciona antes de colocar no ar? Deveriam.

Mas nos últimos 2 anos a Netflix assinou cheques e saiu comprando de tudo. Desde coisas como Haters Back Off (renovada, diga-se) a obras-primas como The Crown. Também comprou séries pequenas e provavelmente baratas como Flaked, Love, Easy e a própria Girlboss.

Veja abaixo um trecho do painel que escrevi em fevereiro:



“(…) O apresentador Bill Nye e Todd Yellin, VP de Produtos da empresa, ponderaram que não existe isso de ‘TV demais’ e que a Netflix não está no ramo de fazer uma programação linear que agrade uma maioria. Pelo contrário, ela quer fazer programas, séries e filmes diferentes entre si e que – juntos – conseguem atingir um número maior de pessoas com os mais variados gostos.”

Você pode ver o vídeo do painel na íntegra aqui. Mas outro dia mesmo Ted Sarandos veio a público dizer que não dá pra gastar mais com séries que pouca gente assiste. O que mudou, então?

Nesse mesmo evento, os realizadores celebraram a “liberdade” que a Netflix dá (veja o vídeo também). Mas talvez Lana Wachowski, Baz Luhrman, Kay Cannon, John Fusco e os irmãos Weinstein precisam de certo controle para dar um resultado melhor. Esse pode ter sido o maior erro até agora: confiar demais naqueles que estão gastando seu dinheiro.

Será que então existe, sim, isso de TV demais? Do contrário não veríamos quatro cancelamentos substanciais em tão pouco tempo, vindo de um veículo que até outro dia tinha como lema ser o “diferente”, “atrevido” e “arrojado”. Se bem que investir em 8 filmes de Adam Sandler não é nada arrojado, já diria a própria Sony. O cara traz dinheiro e agrada maiorias.

Mas essas mesmas “minorias diversas” que a empresa queria agradar pode virar uma maioria desconfiada ao investir seu tempo em alguma série nova. Na TV linear é bem comum espectadores esperarem uma série “pegar” pra poder seguir em frente. Será que devemos já investir de cara em Glow, por exemplo, e consumi-la nas primeiras horas do final de semana após sua estreia? Ou será melhor esperar um pouco mais?

É essa estratégia de ‘fogo de palha’ que a Netflix quer estabelecer? Que suas produções o life-span de, no máximo, um feriado pronlongado?

Séries como as já mencionadas Breaking Bad, The Americans e até mesmo sucessos absolutos como Game of Thrones conquistaram espectadores com o tempo, permitindo seus realizadores ajustar o que não dava certo e melhorar ano após ano. Mas na Netflix não dá pra prever como todo o público vai receber algo depois que tudo já está pronto e despejado na plataforma para consumo imediato, tal qual um delivery recém-chegado do iFood. Do contrário, corremos o risco da comida estragar logo antes de darmos a primeira mordida.

Está evidente que a Netflix precisa mudar sua estratégia antes de produzir e despejar conteúdo para, meses depois, cancelá-los.

Por Bruno Carvalho, do Ligado Em Série - Revisado por Lucas Chiodini
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