FILME BRASILEIRO É PREMIADO EM CANNES - Tube News

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25 maio 2017

FILME BRASILEIRO É PREMIADO EM CANNES

'Gabriel e a montanha' levou dois prêmios na Semana da Crítica

Cena do filme "Gabriel e a montanha" - Divulgação


Único longa-metragem brasileiro na programação do 70º Festival de Cannes, “Gabriel e a montanha”, escalado para a mostra paralela Semana da Crítica, ganhou dois prêmios nesta quinta-feira: o France 4 Visionary Award, entregue a revelações do cinema (para seu diretor, Fellipe Gamarano Barbosa), e o Gan Foundation Award For Distribution, destinado a alavancar sua distribuição na França. Estrelada por João Pedro Zappa, o filme reconstitui os últimos passos do jovem economista Gabriel Buchmann, que morreu de hipotermia ao tentar escalar o monte Mulanje, o pico mais alto do Maláui, em 2009, aos 29 anos de idade. Amigo de infância de Fellipe, o rapaz havia resolvido passar uma temporada na África, vivendo entre a população pobre, antes de se qualificar para um doutorado na Califórnia.

O filme chamou a atenção já em sua primeira exibição, no domingo. Coprodução das brasileiras TV Zero e Gamarosa Filmes com a francesa Damned Films, “Gabriel...” deve chegar aos cinemas da França em agosto. Mas ainda não tem data para estrear em seu próprio país de origem.

— Vários distribuidores brasileiros estão aqui em Cannes e não viram meu filme — desabafa o diretor, que estreou com o drama “Casa grande” (2014). — Desde que “Gabriel e a montanha” foi selecionado, divulgamos que ele ainda não tinha distribuição garantida no Brasil. Como os caras vêm aqui e não assistem aos filmes brasileiros? Os franceses reclamam muito do mercado de filmes pequenos, mas a situação no Brasil é pior.

O longa reconstitui a história de Gabriel a partir de anotações e e-mails que ele trocou com a mãe e a namorada, além de depoimentos colhidos entre pessoas com quem ele conviveu na África. No filme, guias, motoristas e anfitriões reencenam com os atores os contatos que tiveram com o brasileiro.

— É uma forma de brincar com o tempo. A imagem está no presente, e o som está no passado, na memória — explica Fellipe, que escreveu o roteiro com o russo Kirill Mikhanovsky, diretor de “Sonho de peixe”, selecionado para a Semana da Crítica em 2006. — O Kirill diz que “Gabriel e a montanha” é um “docdrama”, um documentário da memória de uma pessoa. Gostei do termo, mas a verdade é que o filme não é um documentário puro.

A combinação parece ter agradado aos críticos. A americana “Variety” define “Gabriel e a montanha” como “um filme caloroso, com contornos sociopolíticos”. A britânica “Screen International” ressalta que, “embora nunca pretenda ser um documentário, o filme aborda sua narrativa com inescapável ar de autenticidade”. O jornalão francês “Le Monde” achou que “a primeira parte se desenrola lindamente, com registro de hospitalidade recíproca e de amizade fiel, com uma doçura de encenação e um chocante olhar de ternura”.

— A maioria do público aqui, nas conversas após as sessões, queria compreender o processo, por que usamos personagens reais interagindo com atores, e como fizemos isso. Achavam que teria sido difícil, para aquelas pessoas, reencenar o contato com alguém de que gostavam e que morreu — conta o diretor. — Mas seria muito mais complicado, pelo menos logística e financeiramente, fazer de outra forma. Imagina elenco em quatro países diferentes.

A equipe de Fellipe — 18 pessoas, incluindo João Pedro Zappa e Carolina Abras, que vive a namorada de Gabriel — percorreu um longuíssimo caminho a bordo de um ônibus-caminhão. O roteiro incluía Tanzânia e Zâmbia, com filmagens no topo do Kilimanjaro, a quase 6 mil metros de altitude. Desde o começo, um número se repetiu na trajetória do longa: foram 70 dias de filmagem para reconstituir os 70 dias que Gabriel Buchmann passou na África.

— E o filme estreou aqui, no 70º aniversário de Cannes — emenda Fellipe.

O continente africano não era exatamente desconhecido para o diretor: em 2007 ele esteve em Uganda para participar de uma oficina de montagem, preparada pela cineasta indiana Mira Nair, sua professora na Universidade Columbia. Ele descreve o primeiro contato com a África profunda como “algo muito forte, porque a gente fica impressionado com o cheiro, a música, a comida, e descobre que tem muita afinidade com os africanos”. Fellipe voltaria à região em 2011, para um novo curso, após a morte do amigo. A percepção sobre a África já havia mudado:

— E não foi pela morte dele. Quando comecei a fazer as pesquisas para o filme, em 2011, fui perdendo a visão romântica que tinha do continente. Comecei a ler mais e a entender o que acontecia longe dos turistas, a pobreza, a ausência do Estado, a perseguição a minorias: três anos após a primeira visita já estavam perseguindo homossexuais, fizeram até um filme sobre isso — conta. — O que a África fez foi me reaproximar do Gabriel.

VEJA OS PREMIADOS EM CADA CATEGORIA DA SEMANA DA CRÍTICA

Grand Prix Nespresso: "Makala" (França), d'Emmanuel Gras

Prix Révélation France 4: "Gabriel e a montanha" (Brasil), de Fellipe Gamarano Barbosa

Prix Découverte Leica Cine du Court Métrage: "Los Desheredados" (Espanha), de Laura Ferrés

Prix Fondation Gan à la Diffusion: "Gabriel e a montanha" (Brasil), de Fellipe Gamarano Barbosa

Prix SACD: "Ava" (França), de Léa Mysius

Prix Canal+ du Court Métrage: "Najpiekniejsze fajerwerki ever" (Polônia), d'Aleksandra Terpinska


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