KOKO, A GORILA QUE FALA

Ela virou celebridade do YouTube por conhecer mais de mil palavras da linguagem de sinais humana. Mas, por trás dessa inteligência há um lado controverso

Koko (Foto: André Toma)


– Você gostaria de voar como um pássaro?

– Embaixo.

– Você prefere ficar no chão?

– Embaixo chão.

– Eu acho você inteligente.

(Koko sorri.)

– Você me ensina [a falar] gorila?

– Amo Koko pressa.

– O que os gorilas dizem quando estão felizes?

– Você sabe sorriso.

– O que os gorilas dizem quando estão bravos?

– Koko conhece boa Koko.

– O quê?

(Koko bate no peito e continua.)

– Gorila Koko.

– O que os gorilas dizem quando estão com medo?

– Rápido cortinas.

(Quando sente medo, Koko costuma pedir aos tratadores que fechem as cortinas da habitação onde vive.)

– O que assusta os gorilas?

– Problema.

– O que você sente quando comeu bolo demais?

– Triste estômago ruim.

Este é um diálogo real entre a gorila Koko e a pesquisadora Barbara Hiller, da Universidade Stanford – ambas se comunicando por meio de linguagem de sinais. Koko se expressa de maneira rudimentar, em sentenças curtas (ela raramente forma frases com mais de quatro palavras) e pouco estruturadas. 

Mas claramente consegue entender o que está sendo dito, sobre vários temas, e manifestar o que pensa a respeito. É um registro extraordinário, o mais próximo que o ser humano já chegou de conseguir se comunicar com um animal. O diálogo foi registrado pela psicóloga animal Penny Patterson, também de Stanford, que nos últimos 44 anos foi a “mãe” de Koko – e ensinou a gorila, desde que ela tinha apenas um ano de idade, a entender e usar a linguagem de sinais humana. Segundo Penny, hoje Koko é capaz de entender e utilizar 1.100 palavras.

A gorila vive num santuário construído na cidade de Woodside, na Califórnia, que tem uma área interna – um trailer com dois ambientes – e uma área externa, para a qual ela pode sair. Koko recebe visitas diárias de Penny, que mora a cinco minutos do santuário, e é supervisionada por tratadores, que preparam sua alimentação e procuram distraí-la com brinquedos, DVDs (ela demonstra preferência por filmes com bichos, como Babe, O Porquinho, Dr. Dolittle e Free Willy) e conversas, sempre via linguagem de sinais, ao longo do dia. 

A gorila também pinta quadros, que lembram arte abstrata e são vendidos, pela internet, por US$ 100 a US$ 350. Koko já foi capa de revistas, gravou vídeos com artistas, foi assunto de documentários e programas de TV, e tem um canal no YouTube com até 7 milhões de acessos por clipe. É uma celebridade. E sempre foi.

Sua popularidade começou logo que ela nasceu, em 4 de julho de 1971, no zoológico de São Francisco, e o parque fez um concurso para escolher o nome. O vencedor foi Hanabi-Ko, expressão japonesa que significa “criança dos fogos de artifício” – homenagem ao dia da independência dos EUA, o mesmo do nascimento da gorila. 

O nome acabou abreviado para Koko. Ela teve um começo de vida feliz, vivendo acompanhada dos pais, Jacqueline e Bwana. Demonstrava presença marcante e já compreendia alguns sinais ensinados pelos tratadores, como “comer” e “beber”.

Aos 6 meses, a gorilinha teve uma infecção intestinal, foi internada e quase morreu. Ao se recuperar, não foi devolvida ao grupo. O zoológico achou que sua mãe não a reconheceria, e não a amamentaria (os gorilas mamam até os três anos). Koko foi isolada e passou a ser estudada em tempo integral por Penny. Ao completar 3 anos, foi levada para um cativeiro na Universidade Stanford. Já tinha aprendido 80 sinais. Foi nessa época que a gorila começou a juntar palavras, formando frases como “Koko quer mais comida”.

Quando Koko tinha 5 anos, Penny pediu sua guarda definitiva. Usando donativos, criou a Fundação Gorila e arranjou o pequeno santuário em Woodside. O zoológico topou, desde que Penny pagasse uma taxa (US$ 52 mil em valores de hoje) e arrumasse um macho para Koko se reproduzir – pois os gorilas ocidentais das terras baixas, espécie a que ela pertence, estavam (e ainda estão) ameaçados de extinção. 

O escolhido foi Michael, um gorila camaronês de 3 anos que vivia em um parque na Áustria. Não rolou. Koko sempre encarou Michael como um irmãozinho mais novo, e nunca quis copular com ele (os gorilas, como os humanos, têm rejeição ao incesto). Penny também adotou Michael, que passou a viver junto com Koko. “Às vezes eu vejo uma família com seis, sete filhos e penso: como alguém pode criar tantas crianças? Aí eu caio na gargalhada, já que cuido de dois gorilas”, diz Penny em um vídeo gravado nos anos 1980. Ela raramente fala à imprensa (recusou, inclusive, um pedido de entrevista à SUPER), e mantém rígido controle sobre Koko, que nunca foi estudada profundamente por outros pesquisadores. 

As habilidades linguísticas da gorila estão documentadas em mais de 2 mil horas de vídeos gravados por Ron Cohn, biólogo da Universidade Stanford que acompanha Koko desde o nascimento. Mas a falta de estudos independentes sempre despertou dúvidas sobre a real capacidade da gorila. Porque a educação de Koko não foi a primeira tentativa de ensinar um primata a se comunicar com humanos.

O menino e o macaco

Na década de 1930, acreditava-se ser possível fazer um macaco falar. Bastaria ensiná-lo. Em 1933, o psicólogo Winthrop Kellogg, da Universidade de Indiana, adotou o chimpanzé Gua, com 7 meses de idade. 

O animal passou a viver com o pesquisador, ao lado de sua esposa e do filho, Donald, então com 10 meses de idade. Criados praticamente à mesma maneira, Donald e Gua tinham seus comportamentos analisados diariamente. O cientista monitorava e comparava aspectos como pressão arterial, tamanho do corpo, reflexos, vocalização, locomoção, força e equilíbrio. Nove meses depois, sem notar evolução nos estudos, o psicólogo interrompeu a pesquisa. 

O chimpanzé até respondia a comandos verbais, mas não falava uma única palavra. Donald, por sua vez, começava a fazer barulhos de macaco. O psicólogo achou melhor parar por ali.

 Décadas mais tarde, primatologistas americanos chegaram à conclusão de que macacos jamais falariam. A explicação? Primatas têm a língua menos flexível que a nossa, além de laringe (órgão que é responsável pela vibração da garganta e emissão dos sons) grande demais. Por isso, o máximo que eles conseguem produzir são urros. Jamais poderiam gerar sons com a delicadeza necessária à fala.

Os esforços passaram, então, para a linguagem de sinais. Os psicólogos Allen e Beatrix Gardner, da Universidade de Nevada, foram os pioneiros. Em 1967, começaram a ensinar uma chimpanzé, Washoe, a reconhecer símbolos e gestos. Segundo eles, Washoe (que morreu em 2007, aos 40 anos) conseguiu memorizar 250 termos. 

Depois dela veio o chimpanzé Nim Chimpsky – o nome é uma homenagem bem-humorada ao filósofo americano Noam Chomsky, considerado o pai da linguística moderna (ele foi o primeiro a propor que os seres humanos já nascem com uma aptidão genética para a linguagem). 

Nim, o chimpanzé, foi educado pelo psicólogo Herbert Terrace, da Universidade Columbia. O bicho aprendeu 125 símbolos, quase todos representando comida ou brinquedos, mas Terrace considerou a experiência um fracasso. Concluiu que Nim (morto em 2000, aos 26 anos) estava apenas repetindo gestos humanos. 

Não possuía capacidade de raciocinar e escolher palavras para expressar algum pensamento, e suas “falas” eram apenas uma forma mais sofisticada de reflexo condicionado, como a reação de um cachorro que dá a patinha ao escutar um sino – porque um humano o condicionou, por meio de recompensas ou castigos, a fazer isso. 
O mesmo valeria para Koko.

Essa tese é corroborada por Robert Sapolsky, primatologista da Universidade Stanford e um dos maiores especialistas mundiais na área. “Existem vários vídeos reconfortantes de Koko, mas não há dados, não há números”, disse durante uma palestra. Para ele, as gravações mostram apenas a gorila seguindo uma ordem de palavras. 

A polêmica mais recente aconteceu no final de 2015, quando Koko apareceu em um vídeo gravado para divulgar a 21ª Conferência do Clima, a COP-21, em Paris. Ela gesticulava formando frases cuja mensagem era algo como “o ser humano precisa urgentemente preservar o planeta”. Muita gente achou que aquilo era fake, um script decorado após horas de treinamento coordenado por Penny. De fato: acreditar que um gorila possa compreender um tema tão complexo quanto o aquecimento global equivale a crer em duendes.

Polêmicas à parte, vários especialistas dizem que os macacos têm a capacidade de dominar e usar linguagem. “Quando o animal aprende uma palavra, ela pode trazer uma valência, ou seja, um sentimento negativo ou positivo. 

Então ele associa uma coisa à outra, e se manifesta”, diz Ceres Faraco, doutora em psicologia animal e professora da Uniritter, em Porto Alegre. Talvez os gorilas tenham, inclusive, o próprio idioma de sinais.

 Em 2009, pesquisadores da Universidade de Neuchatel (França) analisaram 105 horas de gravações de quatro grupos de gorilas, um selvagem e três de cativeiro, e dizem ter identificado um repertório de 102 gestos.

All Ball, o primeiro gato a ser adotado por Koko. Foi uma maneira de tentar aplacar a solidão da gorila. Mas teve um desfecho trágico. (Foto: André Toma)


Gatos, família e solidão

Quando Koko completou 11 anos, Penny anunciou que ela tinha aprendido 876 sinais. Com um detalhe surpreendente: 54 haviam sido criados pela própria macaca, combinando outros gestos (para se referir a “anel”, por exemplo, Koko combinava as palavras “pulseira” e “dedo”). Em outro caso, ao avistar pela primeira vez um ganso, a gorila teria gesticulado “pássaro” e “água”. 

Koko aprendia mais e mais, mas também ficava mais triste. Sua solidão era cada vez mais visível. Para tentar apaziguá-la, uma voluntária levou uma caixa cheia de gatinhos recém-nascidos até a gorila, que escolheu um e o adotou. Seu nome, criado pela própria Koko, era “All Ball” (todo bola). Ela adorava o bichinho, que tratava como se fosse um filhote seu. Mas o caso de amor entre mãe e filho, macaca e gato, durou poucos meses. Durante uma noite, All Ball escapou da fundação e foi atropelado. 

Ao saber disso, Penny disse a Koko que o animalzinho havia se ferido e não voltaria mais. “Ruim”, “triste”, expressou a gorila, olhando para o lado. “Gato”, “chora”, “eu triste”, “amor da Koko”, complementou. Mais tarde, sozinha, soltou grunhidos de tristeza. Koko ganhou dois outros gatinhos, Lipstick e Smokey, e desde então vive rodeada por bichanos (em 2015, seu presente de aniversário foram dois novos “filhos”, Mr. Gray e Ms. Black).

Como Michael e Koko nunca foram, de fato, um casal, em 1991 a Fundação Gorila saiu em busca de outro parceiro para ela. A seleção envolveu horas de análise em vídeo – todos devidamente vistos pela “noiva”. 

Caberia a ela a palavra final. Então com 20 anos, Koko beijou a TV ao ver Ndume, um elegante macho, dez anos mais jovem. A escolha animou a todos, especialmente porque Ndume, morador do zoológico de Cincinnati, já havia tido três filhos. Levado ao encontro de Koko, novamente uma frustração. 

Passaram semanas, meses, e nada de acasalamento. Além da diferença de idade, outra explicação pode estar na inabilidade de Koko em lidar com a questão sexual. Assim como aconteceu com Michael, Ndume ficou sob a responsabilidade da Fundação Gorila, onde vive até hoje.

Atualmente, é improvável que Koko venha a ter filhos, pois a fertilidade da espécie dela cai rapidamente a partir dos 30 anos. A gorila mais velha do mundo a procriar teve filhotes aos 37. Koko inclusive já superou a expectativa de vida de sua espécie, que fica ao redor dos 40 anos. “Quando perguntamos a ela o que quer de aniversário, ela sempre diz: bebê”, disse Penny à BBC, que este ano conseguiu permissão para acompanhar a rotina da gorila durante um mês. As cenas, exibidas em um documentário da emissora, são de cortar o coração. 

Durante seu aniversário de 45 anos, em julho, Koko irradia tristeza. Pouco se mexe, mal dá importância ao bolo e só aceita assoprar as velinhas após muita insistência de Penny.

Assim como Terrace e Sapolsky não acreditam na eficácia da pesquisa envolvendo Koko, diversas outras pessoas criticam a maneira como a gorila vem sendo criada. Desde 2012, Penny tem enfrentado uma série de acusações. Uma delas, levada à mídia por ex-funcionários da Fundação Gorila, diz que Koko estaria muito acima do peso ideal, por negligência de Penny. 

Uma fêmea com a sua idade deveria ter entre 70 e 90 quilos, não os 130 de Koko. “Sempre tentamos levá-la para se exercitar, mas ela nunca saía, só queria se sentar para assistir TV ou dormir”, declarou na época uma ex-funcionária, que não quis se identificar. Outras pessoas que conviveram com Koko também condenam a rotina e a dieta adotadas. Em vez de plantas e legumes, a gorila é alimentada com carne, alimentos processados e guloseimas. Elas afirmam que Koko está muito mal de saúde, e é mantida com mais de 70 comprimidos de remédio por dia.

Como se não bastasse, duas ex-funcionárias, Nancy Alperin e Kendra Keller, decidiram processar a Fundação Gorila por assédio moral. Segundo elas, Penny forçava as duas a fazer as vontades de Koko. E, em meio a essas exigências, um fato bizarro: tinham que mostrar os seios para a macaca cada vez que ela pedisse.

 As ex-funcionárias também dizem que Ndume é maltratratado, relegado a um quase esquecimento. Penny se defendeu à imprensa americana. Disse que Ndume não está esquecido, que não força as funcionárias a nada, que Koko toma apenas 5 a 15 comprimidos, de vitaminas, por dia, que sua dieta é ótima e que o peso tem a ver com o fato de ela ser criada em cativeiro, sem interferir em sua saúde.

Koko, por sua vez, não se manifestou.

Por Superinteressante
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