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30 abril 2017

GAME OF THRONES NA CASA BRANCA

A luta pelo poder é implacável no entorno de Donald Trump. O tenebroso Steve Bannon perde terreno diante dos pragmáticos e da Primeira Filha

Da esquerda para a direita, Donald Trump; o chefe de gabinete, Reince Priebus; o vice-presidente Mike Pence; o estrategista-chefe, Steve Bannon, o porta-voz, Sean Spicer, e o ex-Conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn. REUTERS

Donald Trump é um sobrevivente. Desmesurado e feroz, seu instinto sempre lhe indicou quando deve pular do carro e deixar que outros se choquem. É isso o que parece estar ocorrendo na Casa Branca. Durante as primeiras semanas, o símbolo do poder norte-americano virou um caos. As gafes da assessora Kellyanne Conway e do porta-voz Sean Spicer, além do extremismo do estrategista-chefe Steve Bannon e do conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, assustaram o planeta. O escasso profissionalismo e a nula preparação daquela equipe aumentaram ainda mais o temor que os enfurecidos tuítes de Trump geravam. Sua administração alcançou baixíssimos índices de popularidade.

Foi então que o instinto de sobrevivência falou mais alto. Às vezes aos brados, em outras na surdina, e o núcleo inicial de poder foi se diluindo. Spicer, o único que ainda mantém presença pública forte, dança na corda bambae é um segredo aberto que o presidente só o mantém por seus bons índices de audiência. Conway se tornou um espectro mudo, Flynn caiu fulminado pelo escândalo russo e o sinistro Bannon foi retirado do Conselho de Segurança Nacional e desautorizado pelo próprio Trump. “Eu sou meu próprio estrategista-chefe”, chegou a dizer o presidente.

A manobra diminuiu o ruído e mostrou que o mandatário confia basicamente em si mesmo. “Trump não tem um núcleo duro de crenças exceto seu amor pelo dinheiro e sua convicção de que é tão inteligente que é seu melhor conselheiro”, explica a este jornal David Cay Johnston, Prêmio Pulitzer e autor da incisiva biografia The making of Donald Trump (ainda sem tradução para o português).

Com as águas mais calmas, ainda que não sem grandes ondas, emergiram figuras mais convencionais, falcões de trajetórias resistentes, como o conselheiro de Segurança Nacional, Herbert Raymond McMaster, e o secretário de Defesa, Jim Mattis. Ambos generais, respeitados dentro e fora do campo de batalha, foram incisivos em um dos pouquíssimos sucessos políticos de Trump: o bombardeio ao regime sírio.

Outra figura que se agigantou diante do setor radical é Gary Cohn, antigo diretor da Goldman Sachs e homem forte de Wall Street na Casa Branca. Como responsável pelo Conselho de Economia Nacional travou uma forte batalha contra os fãs de Bannon, em especial o conselheiro-chefe para a área de comércio, Peter Navarro, um ser atormentado pelo déficit comercial dos EUA (502 bilhões de dólares em 2016, cerca de 1,6 trilhão de reais) e defensor da via punitiva em relação a China e Alemanha. A balança, no momento, se inclina em favor de Cohn: o Tratado de Livre Comércio se salvou, a disputa comercial com a China se apaziguou e, ainda que aos tropeções, Trump estendeu a mão a Angela Merkel.

Ivanka Trump com seu marido Jared Kushner e seus filhos no Capitólio. AP

Mattis, McMaster, Cohn e até, nas últimas semanas, o secretário de Estado Rex Tillerson devolveram à presidência certo ar de normalidade. Mas todos eles empalidecem diante das duas estrelas da corte imperial: a filha mais velha e predileta do presidente, Ivanka, e seu marido, Jared Kushner. A Primeira Filha, de 35 anos, tirou a máscara e, ao contrário de sua promessa inicial de não participar da política, se instalou com sala e cargo, ainda que sem salário, na Casa Branca. Sua influência sobre Trump é enorme. Foi sua sombra na campanha eleitoral e o acalma só de sentar-se ao seu lado. Ele confia quase cegamente na filha. E ela demonstra fidelidade absoluta.

Deste pingue-pongue nepótico participa Jared Kushner, de 36 anos. O genro e assessor presidencial amplia diariamente seu raio de ação. É o arquiteto das negociações com Israel e Oriente Médio e já chegou a ter mais voz do que o próprio secretário de Estado. Judeu ortodoxo e ligeiramente moderado, bateu de frente com Bannon, queridinho da direita mais xenófoba.

Trump, consciente deste curto-circuito, obrigou-os a sentar-se para acertar suas diferenças. O resultado ainda é desconhecido. Mas trata-se de uma batalha na qual só há um vencedor. “Se não me querem, haverá outros lugares em que me queiram mais”, disse um Bannon desesperado.

A saída do estrategista-chefe representaria uma mudança profunda na Casa Branca. Seria o ápice de um processo incipiente no sentido do realismo, mas para o qual ainda há um caminho pela frente. O mesmo que Trump precisa percorrer para chegar ao carma presidencial. “Até o momento, ele não mudou. Continua dando saltos e reagindo de imediato como um estagiário novo em uma redação”, ironiza o Pulitzer Cay Johnston. A normalização, o mundo inteiro sabe, ainda está longe. O jogo continua.

Por El País
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